1 - Hospital do Espírito Santo de Évora, EPE
2 - Centro de Genética Preditiva e Preventiva, Instituto de Biologia Molecular e Celular, i3S - Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto
3 - Serviço de Genética Médica, Hospital Dona Estefânia, ULS São José
4 - Unidade de Endocrinologia Pediátrica, Hospital Dona Estefânia, ULS São José
5 - Consulta Multidisciplinar Síndromes Auto-inflamatórios, Hospital Dona Estefânia, ULS São José
- Comunicação oral em Reunião Nacional – II Fórum de Reumatologia pediátrica e VI Reunião de Casos Clínicos, 18-19/Janeiro/2024 (Lisboa, Portugal)
- 1º Prémio de Melhor Comunicação Oral
Resumo:
Introdução: Haploinsuficiência da A20 (HA20) é um síndrome autoinflamatório (SAI) monogénico de transmissão autossómica dominante causada por variantes que levam à haploinsuficiência do gene TNFAIP3. Este codifica a proteína A20 que desempenha um papel importante na regulação negativa da via clássica de sinalização do NFKB, sendo que a sua hipofunção condiciona aumento da ubiquitinição de NEMO, hiperfosforilação IkBA e IKK, com consequente aumento da residência nuclear de NFKB e produção de citocinas inflamatórias e activação de NLRP3. Apresenta-se mais frequentemente por inflamação sistémica de início precoce com manifestações “Behçet-like”, podendo ter também manifestações auto-imunes. Caso Clínico: Descrevemos o caso clínico de um adolescente de 14 anos referenciado à consulta de Reumatologia Pediátrica por aftose oral recorrente e suspeita de doença de Behçet. Trata-se do primeiro filho de pais não consanguíneos. Da história familiar há a salientar: pai com úlceras orais e genitais recorrentes e lesões cutâneas inflamatórias de repetição, avô paterno com o diagnóstico de doença de Behçet, tia paterna falecida de hepatite autoimune e primo paterno 2º grau com DM tipo 1. Da história pessoal, há a destacar baixa estatura com má progressão ponderal e cruzamento de percentis desde os 6-9 meses, e aftose oral recorrente desde os 5 anos, com agravamento aos 10 anos coincidente com diagnóstico de Doença Celíaca. Instituída dieta sem glúten com negativação dos anticorpos, mas sem recuperação estaturo-ponderal, com agravamento da frequência dos episódios da aftose oral e posterior aparecimento de úlceras perianais. Sem febre, manifestações articulares, oculares ou cutâneas. Analiticamente, apenas aumento VS (27-35 mm1ªh), sem elevação dos restantes parâmetros inflamatórios ou alterações na avaliação sistémica. Considerando a história pessoal e familiar foi realizado estudo imunológico sem alterações e painel multigene de 472 genes de SAI/Imunodeficiências primárias identificando a variante patogénica His577Ilefs* no gene TNFAIP3 (NM_006290.4), herdada do pai, segregando com o fenótipo familiar. A avaliação por Endocrinologia Pediátrica, com prova de de estimulação de hormona do crescimento, atribuiu a baixa estatura a atraso pubertário secundário a doença sistémica. Iniciou terapêutica com colchicina há 12 meses, com melhoria franca da aftose, mantendo apenas dor abdominal tipo cólica esporádica. Conclusão: A HA20 é uma patologia rara, e as suas manifestações clínicas e gravidade variam entre os indivíduos afetados. A Haploinsuficiência da A20 deve ser suspeitada perante um envolvimento major das mucosas, mas também pela presença de manifestações autoimunes, como a Doença Celíaca neste doente e cada vez mais descritas nesta patologia. O espectro de patologias monogénicas “Behçet-like” deve fazer parte do diagnóstico diferencial, especialmente perante uma história familiar sugestiva e apresentação em idade pediátrica precoce. Este doente apresenta uma nova variante patogénica no TNAIFP3, e apresentou boa resposta à colchicina, não necessitando até à data de outra terapêutica imunomoduladora. O diagnóstico será também útil na clarificação do quadro clínico de vários familiares aparentemente afetados, podendo ainda impactar nas decisões terapêuticas futuras.
Palavras Chave: aftose; baixa estatura; Doença Celíaca; Haploinsuficiência da A20; gene TNFAIFP3


