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2018

ANUÁRIO DO HOSPITAL DONA ESTEFÂNIA
REPOSITÓRIO MÉDICO CIENTÍFICO

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VOCAÇÃO PARA AMAR – REFLEXÃO, (RE) ENCONTROS E AFECTOS EM SAÚDE MENTAL INFANTIL, ONTEM E HOJE.

Cláudia Cabido, Rebeca Monte-Alto, Rita Rodrigues.

Área de Pedopsiquiatria, Hospital de Dona Estefânia, Centro Hospitalar Lisboa Central EPE, Lisboa.

- Reunião de formação conjunta da Área de Pedopsiquiatria, Hospital de Dona Estefânia, Lisboa, 9 de Janeiro de 2013.
- Apresentações do trabalho no âmbito das comemorações do centenário do nascimento de João dos Santos, a convite da Dra. Paula Grijó dos Santos:
- Sessão para professores organizada pelo Jardim Infantil Pestalozzi, Biblioteca Nacional, Lisboa, 20 de Março de 2013.
- Tertúlia “O amanhã começa hoje, o amanha são as crianças”, Câmara Municipal de Odivelas, 23 de Outubro de 2013.     
- Apresentação do trabalho sob o formato de exposição no XXIV Encontro Nacional de Psiquiatria da Infância e Adolescência, Centro Hospitalar Pombal-Leiria, Leiria, entre 14 e 16 de Maio de 2013.
- XXIV Colóquio da Sociedade Portuguesa de Psicanálise, Infarmed, Lisboa, 18 de Maio de 2013.

RESUMO

No ano do centenário do nascimento de João dos Santos, co-fundador da Sociedade Portuguesa de Psicanálise, debruçamo-nos sobre a obra do psicanalista e pedopsiquiatra português. João dos Santos questionou os dogmas da psiquiatria, psicanálise e da educação e imprimiu na sua prática clínica a sua impressão digital, marcada pela sua personalidade carismática.
A partir das pesquisas que realizou sobre a criança e da sua concepção dinâmica do funcionamento mental revolucionou a Saúde Mental Infantil em Portugal, formando o primeiro serviço público nacional nesta área.
Foi realizada uma pesquisa bibliográfica da sua vasta obra escrita, algo dispersa. Neste trabalho, destacamos o contributo que deixou sobre a criança, a sua relação com a família, os sintomas que designou conceptualmente como reactivos e sobre o papel do terapeuta.
O sintoma reactivo expressa a existência de um conflito externo, em que aos impulsos e necessidades da criança se opõem as exigências educativas. João dos Santos vê-o como um sinal de alarme que pode, inclusivamente, favorecer o encontro pais-pedopsiquiatra. Para João dos Santos, a tarefa do terapeuta é ajustar a posição dos pais para uma atitude mais activa perante o conflito, sendo que tal não é possível sem que estejamos mais interessados em estabelecer relação, do que em fazer um diagnóstico nosológico. A relação terapêutica permite que os pais tomem consciência de que há um problema comum, o da infância dos filhos e o seu próprio conflito infantil mais ou menos ultrapassado, mas reactivado pela situação actual. É um convite que lhes é feito a revisitarem a sua experiência enquanto crianças.
Assim, defende que o objectivo não é simplesmente curar, mas colocar as pessoas em condições de se curarem, não caindo no erro de nos tornarmos guerreiros de sintomas, nas palavras de Winnicott.
No contexto actual de incertezas políticas, económicas e sociais, vemo-nos de certa forma cativos de um sistema de saúde muito voltado para resultados económicos, para além da pressão do tempo, imposta pela nossa organização social, correndo o risco de assistirmos à diminuição da qualidade dos serviços prestados em Saúde Mental Infantil.
João dos Santos estava para além da sua época. O olhar sobre o seu pensamento, vida e obra, ainda hoje tão inovadores, permite relembrar e reflectir o passado de forma a incentivar novas ideias e novas práticas para o futuro.

Introdução: O período de crise económica e social que atravessamos permite recuperar o estudo de autores que também viveram na sua época crises políticas, económicas e científica. Não mais oportuno lembrar de João dos Santos, no ano de comemoração do centenário do seu nascimento, um dos primeiros pedopsiquiatras e psicanalistas portugueses. Reflectindo profundamente sobre os problemas da sua época, João dos Santos questionou os dogmas da psiquiatria e da educação e estabeleceu uma forma de trabalhar que ainda hoje está presente na organização dos serviços hospitalares de pedopsiquiatria, através do trabalho em equipas multidisciplinares, da intervenção na comunidade e do olhar atento ao funcionamento mental da criança.
Objectivos: Com este trabalho pretendemos recordar o pensamento, vida e obra de João dos Santos, de forma a reflectir o passado, o presente e olhar para o futuro.
Métodos e Resultados: Foi realizada uma pesquisa bibliográfica da sua obra escrita, algo dispersa, através da consulta de artigos e livros do autor.
Aprofundamos temáticas e conceitos que considerámos particularmente úteis, pela sua actualidade, para a formação de pedopsiquiatria: a criança e a família, o papel do pedopsiquiatra, os sintomas reactivos e a relação terapêutica.
Ilustramos, através de duas vinhetas clínicas, o trabalho clínico baseado nos princípios do autor.
Casos Clínicos: Apresentamos o caso de uma criança de 8 anos com comportamento agressivo e furtos, sinalizada à consulta por maus-tratos da mãe. A tolerância do terapeuta para com os comportamentos de ambos ajudou a mãe a implicar-se no conflito do filho, o que permitiu uma melhoria da criança.
O segundo caso é de uma criança de 7 anos, com uma inibição psicoafectiva e dificuldades de adaptação escolar, numa família com relações disfuncionais, cujo sofrimento familiar foi agravado, no último ano, pela doença oncológica da mãe. O trabalho em equipa ofereceu à criança uma dimensão relacional, individual e em grupo, desmistificando o receio da socialização. A criança encontrou a tranquilidade interna e curiosidade necessárias para iniciar a escolaridade.
Conclusão: Lembrar e estudar a obra de João dos Santos encoraja-nos a continuar a pesquisar soluções criativas para as situações crescentes em Saúde Mental Infantil.

Palavras-chave: João dos Santos, Pedopsiquiatria, Sintoma reactivo, Relação terapêutica, Equipa multidisciplinar.