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2019

ANUÁRIO DO HOSPITAL
DONA ESTEFÂNIA

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PROCTOCOLITE ALÉRGICA, ENTEROPATIA E ENTEROCOLITE INDUZIDA POR PROTEÍNAS ALIMENTARES - A VISÃO DO IMUNOALERGOLOGISTA E DO GASTROENTEROLOGISTA

Ana Margarida Romeira1, Laura Oliveira2

1 - Unidade de Imunoalergologia, CHULC – Hospital de Dona Estefânia
2 - Unidade Gastrenterologia Pediátrica, CHULC - Hospital de Dona Estefânia 

- SPAIC – Reunião da Primavera – Alergia Alimentar, Patologias emergentes, Ofir, 14 de Abril, 2018.
- Comunicação oral, Mesa Redonda

A Enterocolite Induzida por Proteínas Alimentares (FPIES) inicia-se no primeiro ano de vida e pode ter duas apresentações clínicas, aguda e crónica. A forma aguda caracteriza-se por vómitos profusos e repetitivos, palidez e letargia (1 a 4 horas após ingestão), associados a diarreia (5 a 10 horas após ingestão), hipotensão e choque. A forma crónica caracteriza-se por diarreia crónica, fezes com sangue e vómitos e, nos casos mais graves, défices nutricionais e má progressão estaturo-ponderal. Na forma crónica há uma ingestão contínua do alimento, enquanto que a forma aguda pode ser a apresentação inicial de FPIES ou ocorrer num doente com FPIES crónica, em que o alimento é ingerido após um período de evicção (ex., prova de provocação- PPO). Os alimentos mais frequentemente envolvidos são leite de vaca, soja, arroz e aveia, mas vegetais, frutos, ovo, peixe e aves também podem ser desencadeantes. Os testes cutâneos (TC) e/ou IgE específicas são habitualmente negativos (exceto nas formas atípicas). O diagnóstico é clínico – sintomas sugestivos, resolução das queixas com a evicção e reaparecimento das mesmas com ingestão. A PPO permite a confirmação do diagnóstico. Pode ser dispensada na FPIES aguda se ocorreram duas ou mais reações típicas num período de 6 meses. O tratamento passa pela evicção do(s) alimento(s). A cada 12 a 18 meses deve ser verificada aquisição de tolerância (PPO). A aquisição de tolerância varia consoante o alimento envolvido – mais cedo para leite de vaca e soja (cerca dos 3 anos) do que para alimentos sólidos (a partir dos 5 anos).
A Proctocolite Alérgica Induzida por Proteínas Alimentares (FPIAP) inicia-se nas primeiras semanas de vida (dias até 6 meses) e é habitual em bebés em aleitamento materno exclusivo. Caracteriza-se por fezes com sangue que ocorrem de forma intermitente, num bebé que está aparentemente saudável e com bom desenvolvimento. Não há vómitos ou diarreia e os TC e/ou IgE específicas para os alimentos são negativos. Os alimentos mais frequentemente implicados são leite de vaca, soja, ovo e trigo (ingeridos pela criança ou presentes na dieta materna, no caso de bebés amamentados). A confirmação do diagnóstico faz-se através de prova de provocação (4 a 8 semanas após dieta de evicção), que leva a reaparecimento de sangue nas fezes. O tratamento faz-se com a eliminação do alimento implicado da dieta da mãe ou da criança. A maioria das crianças com FPIAP adquire tolerância até 1 ano de idade.
A Enteropatia Induzida por Proteínas Alimentares (FPE) é uma patologia cuja prevalência tem vindo a decrescer desde os anos 70 até à atualidade. A sintomatologia pode ter início entre os 2 e os 24 meses de idade. Observa-se diarreia crónica, vómitos intermitentes, má-absorção, anemia, má progressão. A sintomatologia resolve com a dieta de evicção. Os TC e IgE específicas para os alimentos implicados são negativos. O leite de vaca é, habitualmente, o alimento implicado, mas ovo, soja ou trigo também podem ser a causa. A confirmação do diagnóstico passa, tal como nas patologias anteriores, por resolução dos sintomas com a evicção do alimento, seguida de prova de provocação positiva (reaparecimento de vómitos e/ou diarreia). A maioria dos casos resolve entre 1 e 3 anos.
Estas alergias alimentares não IgE mediadas ocorrem frequentemente nos primeiros anos de vida, embora também se possam observar em crianças mais velhas ou adultos. Têm geralmente um prognóstico favorável.

Palavras Chave: alergia alimentar, enteropatia, IgE