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2018

ANUÁRIO DO HOSPITAL DONA ESTEFÂNIA
REPOSITÓRIO MÉDICO CIENTÍFICO

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NECROSE TESTICULAR AGUDA POR HÉRNIA DE AMYAND IRREDUTÍVEL – COMPLICAÇÃO RARA DE UMA PATOLOGIA RARA

Joana Patena Forte1, Ema Santos1, Sara Carmo2, Aline Vaz da Silva1, João Pascoal1

1Serviço de Cirurgia Pediátrica do Hospital D. Estefânia, Centro Hospitalar Lisboa Central
2Serviço de Cirurgia Pediátrica do Hospital de S. Bernardo, Centro Hospitalar de Setúbal

- Congresso Nacional da Sociedade de Cirurgia Pediátrica 2017 (poster)

Introdução: A Hérnia de Amyand consiste na presença do apêndice ileocecal no saco herniário inguinal. É uma situação rara, correspondendo a menos de 1% dos casos de hérnia inguinal, sendo na maioria dos casos diagnosticada intraoperatoriamente. É mais frequente à direita, no entanto pode ocorrer à esquerda quando associada a situs inversus, má-rotação intestinal ou cego incompletamente fixado. Podem ser complicações da hérnia de Amyand o seu encarceramento e estrangulamento e o escroto agudo por apendicite aguda ou isquémia testicular.
Caso Clínico: Lactente de 6 meses, do sexo masculino, ex-prematuro de 35 semanas, gémeo sobrevivente de uma gravidez gemelar, com normal desenvolvimento psicomotor e estaturo-ponderal. Seguido em consulta de cirurgia pediátrica por hérnia inguinal direita, a aguardar cirurgia. Foi enviado ao serviço de urgência do Hospital D. Estefânia por hérnia inguinal encarcerada com cerca de 6 horas de evolução. À observação apresentava-se apirético, desconfortável, com tumefação inguinal direita volumosa e testículos palpáveis e simétricos nas bolsas escrotais. Após analgésico, relaxante muscular e aplicação de gelo, realizaram-se múltiplas tentativas de redução do conteúdo herniado sem sucesso, tendo sido submetido a cirurgia de carácter urgente. Por abordagem inguinal constatou-se: saco herniário contendo cego e apêndice ileocecal, sem alterações inflamatórias, com vascularização e viabilidade mantidas; isquémia do testículo direito por compressão vascular do cordão espermático, pelo conteúdo herniário encarcerado, contra orifício inguinal externo, sem melhoria da perfusão após redução da hérnia e aquecimento do testículo. Procedeu-se a redução do conteúdo herniário com preservação do apêndice, laqueação alta do canal peritoneo-vaginal e orquidectomia com orquidopexia contralateral. O pós-operatório imediato decorreu sem intercorrências, tendo tido alta 48 horas após a cirurgia.
Discussão: A hérnia inguinal pode ter várias complicações, sendo que este caso demonstra a rapidez de evolução para isquémia irreversível do testículo a partir do início dos sintomas agudos, ilustrando os riscos de protelar a cirurgia eletiva. A apendicectomia profilática na hérnia de Amyand sem alterações inflamatórias do apêndice é controversa, devendo-se ponderar o risco aumentado de infeção e morbilidade da cirurgia com a probabilidade de apendicite no futuro.