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2018

ANUÁRIO DO HOSPITAL DONA ESTEFÂNIA
REPOSITÓRIO MÉDICO CIENTÍFICO

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CUIDAR DA EPILEPSIA EM CABO VERDE - CRIANÇAS E ADOLESCENTES SEGUIDOS NO HOSPITAL AGOSTINHO NETO 2011 - 2017

Albertina Lima1; Ana Isabel Dias2; Antónia Fortes1, Rita Lopes da Silva2; Teresa Temudo3

1 - Unidade de Neurologia, Hospital Agostinho Neto, Cidade da Praia, Cabo Verde
2 - Serviço de Neurologia Pediátrica, Área de Pediatria Médica, Hospital Dona Estefânia, Centro Hospitalar Lisboa Central, Lisboa
3 - Serviço de Neurologia Pediátrica, Hospital de Stº António - Centro Hospitalar do Porto

Prémio Tecnifar Dr. Orlando Leitão em Epilepsia 2017

Introdução: Cabo Verde (CV) é um país emergente, tem dos melhores indicadores de saúde de África mas tem carências em saúde e saneamento básico. Existem apenas duas neurologistas/500 000 habitantes. Decorre desde 2011 uma cooperação em Neuropediatria entre Portugal e CV para trabalho assistencial e formação, com capacitação de profissionais locais. A epilepsia é das patologias neurológicas mais frequentes, com incidência de 41-187/100 000, encontrando-se os valores mais elevados nos países emergentes. A prevalência é 3.2-5.5/1 000 nos países desenvolvidos e 3.6-44/1 000 nos países em desenvolvimento.  Estima-se que existam em CV 2 a 3 000 pessoas com epilepsia, grande parte em idade pediátrica. Das carências em epilepsia salienta-se: dificuldades no acesso a medicamentos,  exames de imagem e electroencefalogramas. Só desde Maio 2017 existe electroencefalógrafo no Hospital Agostinho Neto (HAN), o que vai permitir melhorar o seguimento dos doentes com epilepsia neste hospital central da capital de CV. Até aí apenas existia um no país. Tornou-se fundamental analisar o trabalho desenvolvido e caracterizar a população, para programar estratégias e melhorar solidamente o seguimento futuro.
Metodologia: Estudo retrospectivo dos doentes com epilepsia com menos de 18 anos, seguidos no HAN. (Novembro 2011-Maio 2017)
Resultados e Discussão: Incluíram-se 166 doentes, com média de idades de 12,2 anos. O diagnóstico foi feito, em média, aos 2 anos. A maioria dos doentes,75 (45.2%), tinha crises focais.52 doentes (31.3%) tinham crises descritas como tónico-clónicas generalizadas. Em 37 (22.3%) não foi possível classificar o tipo de crises. A classificação sindromática foi possível num número reduzido de doentes e o número dos que realizaram exame de imagem (57.2%) foi maior do que o dos que realizaram EEG (21.1%), reflectindo a carência desta técnica. Existe proporção significativa de epilepsias sintomáticas, sobretudo relacionadas com sequelas de problemas perinatais (encefalopatia hipóxico-isquémica) e de infecções do sistema nervoso central (meningites, neurocisticercose). Estas causas são preveníveis e/ou tratáveis pelo que há grande necessidade de melhorar a Neonatalogia, os cuidados primários de saúde e o saneamento básico. A maioria dos doentes, (78.3%), encontrava-se controlada em monoterapia.
Conclusões: Impõe-se dar maior visibilidade à epilepsia e promover mais acções na comunidade. Vão ser concretizadas em breve a telemedicina Portugal-Cabo Verde em Neuropediatria e uma Consulta de Epilepsia no HAN. Acreditamos que este é um modelo eficaz e sustentável de cooperação.